Ouça o que Jessier tem para lhe dizer.

Jessier Quirino

RESUMO DE ENTREVISTA CONCEDIDA AO JORNAL O NORTE

— Como você percebeu a veia poética?

JQ – Pra essas coisas do lado artístico, sou eu e a torre de Pisa: sempre tive inclinação. Sempre fui de desenhar, pintar, tocar violão, compor alguma coisa, ouvir, dizer causos e recitar. Antes da arte da poesia nasceu a arte de declamar; era a poesia de fraldas e a declamação de calça Topeka. Sempre fui de colocar inflexão e força no ato declamatório e de formar pequenas platéias, feito vendedor de casca de pau. Percebi minha veia poética declamando as coisas dos outros, depois passei a fazer minha própria poesia.

–Você é arquiteto de formação, mas hoje já não tem tempo para a arquitetura. Como foi a transição?

JQ – Foi aos poucos, pouquinhos, e com cuidado, como quem carrega roupa engomada. Sempre traquejei com arquitetura, e a poesia era o leite de coco do meu “manguzá”. Com a publicação dos dois primeiros livros, o Quirino foi marcando presença, feito pimenta em panelada e os convites foram aumentando. Após o lançamento do livro Prosa Morena, não pude mais fugir a este reconhecimento. Hoje, faço alguns projetos de arquitetura, mas não tenho condições de dar a devida assistência às obras maiores como concessionárias e tudo mais. Agora, faço poesia e espetáculos, mas o arquiteto observa tudo, quietinho, feito ajudante de missa.

— O que inspira o poeta?

JQ – Sou muito de assuntar, de ficar ali “banzeirando”. Acho até, que, se eu fumasse cachimbo, assuntaria muito mais. Anoto tudo: palavras, ditos, faíscas poéticas… Talvez, com o grande estalo de um tema, seja o chamado para sentar e buscar as anotações. Aí começa um processo construtivo como outro qualquer. João Cabral de Melo Neto descreve bem isto no poema “Catar Feijão”, onde faz uma comparação brilhante com o escrever: “…Jogam-se os grãos na água do alguidar e as palavras na folha do papel; e depois joga-se fora o que boiar…” O Mestre finaliza, dizendo que alguma pedra ou grão imastigável pode ficar, mas este, dará a palavra o seu grão mais vivo. No meu caso, eu deixo, não só uma pedra, mas a palha, uma catemba de coco, um taco de fumo de rolo, um xô-galinha-daqui, um reparo “má-criado”, que são as palavras baldias do universo sertanejo.

–Você se inspira em algum poeta?

JQ – Tenho influências poéticas variadas. No início me influenciavam muito a poesia matuta de Zé da Luz, Zé Laurentino e o cantar dos Mestres repentistas. Aprendi ali a admirar o lirismo, o humor e nordestinidade. Hoje, com uma poesia mais rebuscada, bebo um pouco na fonte de muitos: no cunho social de Patativa e Catulo, no lirismo matuto de Renato Caldas, no surrealismo de Zé Limeira, nas imagens de Acenso Ferreira, no neologismo de Guimarães Rosa e José Cândido de Carvalho, na desconstrução do Manoel de Barros, na brasilidade e originalidade de Raul Bopp, nas pesquisas dos folcloristas, além de me debruçar no vocabulário popular rico e pitoresco do Nordeste.

— As poesias matutas geralmente são longas, mas têm muita musicalidade. Você já fez letra para alguma composição?

JQ – Como faço uma poesia de métrica e ritmo apurados, muitas vezes termino musicando algumas histórias, como as músicas: “Bolero de Izabel”, “Secas de Março”, e “A Cumeeira de Aroeira Lá da Casa Grande” dos livros e CDs: Prosa Morena e Bandeira Nordestina. Em outros casos, me sento e faço canções de próprio querer. Na verdade, as composições que uso nos espetáculos e nos CDs são para quebrar o peso de ser só poesia e vale mais o registro autoral. Como meu traquejo de interprete é fraco feito choque de lanterna, acho que, os poemas declamados serão sempre a abelha mestra dos palcos e dos CDs.

— O que é mais importante para um poema, a história em si ou a forma?

JQ – Acho que as coisas se completam, feito cachaça com caju e jerimum com bode. Uma boa história pode perder o brilho de gilete quando se parte para o óbvio ou quando é dita de forma enfadonha. Gosto de provocar uma surpresinha no dizer e isto é remédio de grande valimento. Tenho, por exemplo, um poema que descreve a “belezura” de uma miss e o nome é: “Miss Feiúra Nenhuma”.

–Você é um poeta inspirado na cultura nordestina, mas é cosmopolita se apresentando em todo o Brasil. Que encanto é esse que parece não ter fronteiras?

JQ – Nem sei se há esse encantamento todo. Talvez o que a gente possa analisar é que, no passado, as elites colonizadas e provincianas, valorizavam muito o dizer e o estilo importado. De uns dezembros pra cá, as pessoas estão se dando conta de que aquele referencial de excelência do importado, não merece lugar de tanto destaque assim nas nossas vidas, principalmente se for para enterrar nossa cultura, nossas tradições, nossos valores. Como faço uma poesia meio saudosista e agregada aos valores do campo, tenho encontrado uma resposta muito positiva daqueles ligados a esta realidade.

— Por que geralmente o canto do Nordeste é triste?

JQ – Acho que há, na verdade, uma boa dose de desalento associada ao canto nordestino, por conta da força das vozes dos sertões. Mas há também um canto festivo e irreverente nos cocos, xaxado, forró etc. O canto triste, talvez esteja ligado a própria natureza e a vida do homem do campo e não só o nordestino. No nosso caso, este canto remete ao desbravamento, ao duro cultivo da terra, a lida com o gado – vida de vaqueiro – a luta do homem para superar obstáculos que vão da seca à fome – a emigração -, passando por exploração da mão de obra – vida de capital – e escravidão, que de certa forma rotulou de forma tristonha o cantar interiorano. Esta mistura antropológica originou nossa riquíssima cultura popular, com suas mil e uma faces daí a importância de ser cantada. Se levar uma mensagem positiva, pra cima, melhor ainda.

— Qual a impressão do poeta sobre os políticos?

JQ – Falar de política é feito chupar pitomba: desbota os dentes, amarrota a língua, e não enche barriga. Política é feito relâmpago, é bonito de longe, mas de perto dá é medo. Na realidade, penso que ainda existe o mau e o bom político; este último, um espécime em extinção, claro. O bom político, é feito papagaio do brejo, já nasce pedindo a palavra e sabe trabalhar com probidade e retidão. Já o mau político, meu cumpade, é feito pombo, quando sobe, caga na cabeça do povo… É feito banana de carboreto, engana com a cor da casca. Com essa enganação torna-se imprestável feito rede de bexiguento. Mas nunca é tarde lembrar: trajetória política é feito carreira de raposa, sinuosa e sujeito a tiro e queda. Olho neles.

— O arquiteto vê o design, o poeta a paisagem; O arquiteto, a ciência, o poeta a sensibilidade. O arquiteto interpreta curvas, o poeta as canta. O arquiteto é pragmático, o poeta um sonhador. Que outras diferenças você estabeleceria?

JQ – Um, traqueja com a escala dos milímetros; o outro, com a escala dos sonhos. Um, produz espaço para as atividades humanas; o outro, abre espaço para as emoções. Um, escolhe as cores do catálogo, o outro, perfuma as cores do arco-íres. Um, faz contas e o outro faz de conta. Um, faz ambientação, o outro ambienta a ação. Um é artista, o outro faz arte.

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